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A
ARTE NO COTIDIANO - O COTIDIANO NA ARTE ARTE
Telma
de Oliveira Cintrão*
A
percepção de um leigo sobre a Arte é como uma paisagem recoberta por uma
forte neblina em uma manhã de outono. Cinzento é o olhar, cinzenta é a
paisagem. Aos poucos, o sol, apesar de tímido e acanhado, vai nos permitindo
enxergar mais do que silhuetas. Contornos mais sólidos e significativos
da paisagem começam a se delinear. Sentimos, porém não conseguimos descrever,
traduzir em palavras nossa sensação. Mas, sem dúvida, a vivenciamos. Mas
o por quê dessa visão turva? Será privilégio apenas de alguns ter percepção
da Arte? Será dom? Virtuosismo técnico?
Formas ideais apreendidas por poucos, os ditos "artistas"? Ou será que
nós é que colocamos a Arte num pedestal? Segundo Vasquez, à luz de Hegel,
"a Arte sendo concebida sob o ponto de vista da idealização seria em seu
conjunto uma forma de autoconsciência da idéia, uma forma destinada a
ser superada, já que a verdade só se dá no mundo do pensamento abstrato."
Ou seja, "a Arte seria uma manifestação sensível do espírito ou idéia,
sendo feita pelo homem mas não para o homem." A visão idealizada da Arte
tem paralisado os sentidos humanos e impedido a percepção dela no mundo.
O homem leigo tornou-se um observador distante das obras artísticas, passando
a vê-las como algo inatingível e intocável. Distante do objeto o espectador
não consegue marcá-lo, deixar a sua subjetividade. Se hoje ele tornou-se
apenas um observador, essa nem sempre foi a sua condição. O homem além
de observador era produtor. Criava os objetos e colocava as suas marcas
de sujeito. Todo o caminho da história da humanidade e da Arte tem apontado
para o homem como um ser criador. O fazer artístico acompanhou o fazer
prático e utilitário, mas não reduziu o prático ao utilitário. O homem
comum, o artesão, não eliminou o seu aspecto humano, subjetivo em face
do objeto. Com a transformação da sociedade e dos meios de produção, o
homem deixou de ter domínio do fazer artístico e do objeto como um todo.
A divisão do trabalho o transformou em um mero executor alienado de uma
engrenagem.
Distante do objeto o homem começou a perder o entendimento que o fazer
artístico e o fluir a Arte são atos humanos. Assim a produção determinou
a divisão do trabalho destinado a alguns o domínio das idéias e aos outros
o trabalho prático alienado. Segundo Vasquez, dentro do pensamento de
Marx "a Arte não é mera produção material nem pura produção espiritual.
Mas justamente por seu caráter prático, realizador e transformador, está
mais perto do trabalho humano - sobretudo quando este não perdeu seu caráter
criador - do que de uma atividade meramente espiritual." A Arte está tão
presente no cotidiano humano que às vezes não nos damos conta das nossas
escolhas estéticas rotineiras. As nossas roupas, os pratos que degustamos,
a música que ouvimos, a forma de pentearmos os cabelos, o designer do
nosso carro, as cores, o nosso vaso de flores, etc. Nos muros da escola
não é diferente. A interação da Arte com os demais conteúdos das disciplinas
ensinadas no espaço escolar se dá de forma tão natural que não percebemos.
É difícil, por exemplo, imaginar a Arte sem a matemática.
Observamos, por exemplo, a simetria presente na Arte Egípcia, os cânones
gregos, a perspectiva renascentista, as formas geométricas do cubismo,
etc. Igualmente pode se afirmar que o meio, os aspectos geográficos, sociais
e culturais influenciam a produção artística dos indivíduos. Vejamos,
por exemplo, o Mestre Vitalino e o Aleijadinho, dois artistas de regiões
diferentes. Naturalmente a produção artística desses artistas sofreram
influência direta do meio aonde viveram. Observamos que Mestre Vitalino
vai encontrar no barro, abundante na região onde vivia, o material mais
adequado para o seu trabalho. Mesmo sofrendo influência externa, o artista
sempre é marcado pelo meio. Vejamos no caso específico do artista Aleijadinho
que apesar de sofrer influência de fora se utiliza de recursos da sua
região, como, por exemplo, a pedra sabão e a madeira. Imaginemos ainda
que dificilmente o homem poderá deixar as leis naturais na hora da produção
de seus trabalhos. Nenhum arquiteto e escultor poderia conceber suas obras
sem observar as leis da física. Muito menos o pintor poderia fabricar
suas tintas, preparar seu suporte na dita "cozinha de atelier" sem conhecer
a química, as reações, seus solventes e aglutinantes. A história não é
diferente, pois de fato sendo vista dentro de um olhar crítico, representa
a própria evolução da humanidade, do sujeito e objeto.
Toda a produção do homem carrega a sua história de humanidade e tem na
arte a sua marca de sujeito. Segundo Jorge Luiz Borges ao se referir a
Literatura, dizia que a mesma "não é como um trem que anda na superfície;
é como um rio que corre no subterrâneo e depois emerge numa certa altura,
e a pessoa não sabe o que leva consigo." Mesmo sem perceber, o homem emerge
e retira a essência que o faz humano, pois de fato a história da humanidade
repousa na literatura. Conforme afirma o escritor italiano Antônio Tabucchi,
"...talvez mais do que nos arquivos históricos, nos quais as peripécias
humanas ficam resumidas numa linha, a história oficial propriamente dita.
A história da alma da humanidade, com seus sofrimentos, ilusões, revoluções,
derrotas, está na literatura." A Arte, enfim, permeia todos os caminhos
trilhados pelo homem, pois, de fato, é essência humana, devendo ser sempre
objeto de seu interesse, principalmente no universo escolar.
*Telma de
Oliveira Cintrão Formada em Artes Cênicas Bacharel em Indumentárias pela
Escola de Belas Artes - UFRJ http://www.literarte.com.br
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