QUEIMADAS
À VISTA
Volker W. Johann Heinhich Kirchiioff*
O
mais importante é ensinar, educar o povo a não fazer queimadas,
ainda que pequenas e inocentes na intenção. Fenômenos
climáticos podem acentuar as épocas de seca. Isso ocorreu
recentemente no Brasil, em 1998, durante o enorme incêndio florestal
de Roraima, amplamente divulgado pela imprensa.
O mundo todo está no momento sob efe-to do fenômeno La Niña,
que está relacionado com uma distribuição anômala
de temperaturas numa vasta área do oceano Pacífico e que
tem influências dramáticas em várias regiões
do globo, onde modifica o clima.
As estações do ano no Hemisfério Norte são
defasadas em seis meses em relação às no Hemisfério
Sul. Assim, os Estados Unidos acabam de passar por uma experiência
de extrema seca e de muitas queimadas nos Estados do sul e no Havaí.
Estima-se que, num ano médio, as situações de seca
custem aos cofres americanos cerca de US$6 bilhões. Os prejuízos
neste ano deverão ser muito maiores. Em março quase metade
do país estava sob severas condições de seca, declarou
à imprensa o administrador da NOAA - o Centro Nacional que cuida
dos oceanos e da atmosfera nos Estados Unidos -, James Baker, chefe de
um dos mais poderosos órgãos federais na área de
meteorologia, com orçamento de US$9 bilhões anuais.
Em recente entrevista concedida junto com o secretário de Comércio
dos Estados Unidos, William Daley Baker informava que, como resultado
de dois anos de condições climáticas adversas, o
ano 2000 seria ainda mais seco do que fora 1999. Essas previsões
efetivamente se concretizaram, como foi amplamente divulgado pela imprensa.
Enormes focos de queimada surgiram na Flórida e principalmente
no Novo México, destruindo inúmeras propriedades rurais
e casas e quase destruindo as instalações nucleares de Los
Alamos, famoso laboratório científico da região.
A extensão de áreas queimadas estimada até o momento
é de dois terços do Estado de Rhode Island, o que equivale
a dez vezes o tamanho da área queimada em um ano normal.
O que aconteceu nos Estados Unidos pode, muito provavelmente, ocorrer
também no Brasil. Vários sinais de uma grande seca por vir
na época do inverno já foram lançados. Os reservatórios
de água na região de São Paulo estão todos
bem abaixo de seu volume normal, o que já preocupa as autoridades,
e já há racionamento de água.
As queimadas deverão lambem aumentar. A falta de umidade no solo
e no ar aumenta em muito a capacidade de propagação do fogo.
A região do cerrado do Brasil central, normalmente seca nos meses
de junho a agosto, pode passar por momentos difíceis.
O maior incêndio registrado recentemente no Brasil foi justamente
o de Roraima, em 98, um incêndio florestal de dimensões gigantescas,
que ocorreu na região de cerrado e de floresta, ao norte da linha
do Equador, numa área cuja incidência de queimadas normalmente
é muito pequena comparada à da região do cerrado
do Brasil central. Nessa ocasião, mesmo a floresta, geralmente
úmida o suficiente para resistir à propagação
do fogo, não resistiu e vastas áreas florestais, inclusive
na reserva indígena, foram destruídas.
Os Estados tradicionalmente mais afetados pelo fogo sazonal são
Mato Grosso, sudeste e sul do Pará, Mato Grosso do Sul, Rondônia,
Tocantins, Goiás e Maranhão. Num ano de extrema seca, essas
fronteiras poderiam se estender para o resto dos Estados, todos afetados,
ainda que em menor escala.
Torna-se imperativo iniciar de imediato ampla campanha educacional para
diminuir os focos de queimadas.
Estima-se que, em anos normais, cerca de 30% da região do cerrado
seja queimada. Isso corresponde a quase 1 milhão de quilômetros
quadrados. Se o fator de aumento for, como foi nos Estados Unidos, dez,
temos aí uma possibilidade assustadora.
O excesso que ocorreu em Roraima em 98 pode se repetir. As imensas áreas
queimadas não só destroem a vegetação seca,
mas também destroem as propriedades rurais, matam animais, insetos
e pássaros e tornam a poluição do ar insuportável.
Os hospitais ficarão superlotados. Caso se confirme que a seca
também vai ocorrer nas florestas, elas também poderão
queimar.
O panorama que se aproxima não é dos melhores. É
muito provável que a seca deste ano seja mais intensa que a de
anos anteriores. E, nesse caso, seria inteligente começar a agir
agora. É preciso uma campanha nacional, bem-feita e intensa, para
atingir principalmente o homem rural. O mais importante é ensinar;
educar o povo a não fazer queimadas, ainda que pequenas e inocentes
na intenção. Em geral, é um foguinho inocente que
se transforma em incêndio incontrolável.
VOLKER
W. JOHANN HEINRICH KIRCHIIOFF, 57,
É CHEFE DO LABORATÓRIO
DE OZÔNIO DO INPE
(INSTITUTO NACIONAL DE PESQUISAS ESPACIAIS)
|