Dizer não pode ser o ato definitivo de cuidado consigo mesmo
Maria de Fátima Seehagen

João amava Teresa que amava Raimundo
que amava Maria que amava Joaquim
que amava Lili que não amava ninguém.
João foi para os Estados Unidos. Teresa para o convento. Raimundo morreu de desastre. Maria ficou para tia.
Joaquim suicidou-se e Lili casou-se com
J. Pinto Fernandes que não tinha entrado na história.


(Carlos Drumond de Andrade)

E assim, tantas histórias...Histórias de amor, de trabalho, de alegrias e sofrimentos...Histórias que fatalmente envolvem uma mulher que, antes de qualquer coisa já carrega sobre a sua condição o estigma de ser completa! Mãe dedicada, esposa amantíssima, profissional competente( Para alguns,não tanto que possa ganhar o mesmo que os homens para igual serviço, mas... competentes), e como diz Juca Chaves, de dia uma criança, à noite uma mulher...

Em que momento da grande História a mulher perdeu o seu próprio conceito ou perdeu-se nele?
Em que momento esqueceu que a feminilidade, independentemente da profissão ou condição civil, é um valor em sua essência?
Em que curva do caminho permitiu que explorassem os seus sentimentos e o seu corpo sob o manto de uma falsa vitória idealista : LIBERDADE!

Mas, o que é a verdadeira liberdade? O que diferencia vida de sobrevivência? O que transforma o substantivo em verbo? A nossa qualidade de vida estará sempre relacionada com o nosso interesse pela vida que modificaremos à medida que observamos o mundo, tão rico, tão cheio de tesouros enquanto nós, as mulheres, nos encontramos pré definidas em ícones de uma sociedade que se auto define experimentalista!

O que estamos experimentando?
A libertação sexual hoje banalizada na televisão?
A diversidade de opções que leva ao múltiplo?
Uma fantasia de homem?
A capa do super-homem?
A instabilidade dos relacionamentos que transforma o indivíduo em plural?

Resta-nos questionar se experimentamos o que realmente queremos nesta época em que grande parte das mulheres trabalha fora, grande parte delas cuida sozinha dos filhos, grande parte dos casais se separa.
Qual o padrão social hoje?
Qual o padrão de mulher temos que adotar hoje e qual seremos obrigadas a adotar amanhã, de acordo com o nosso comprometimento atual?

A complexidade dos dias de hoje arrasou com as nossas certezas. A perplexidade preenche o nosso programa de vida e o nosso modelo mental começa a ruir.
A perspectiva do eco-feminismo e recuperação da feminilidade possibilita a saída da mulher objeto para encontrar o poder e a força da feminilidade humana na nossa cultura. Estejamos atentos! Teremos que privilegiar , no econômico, no social, no político, filosófico e religioso o pensamento brando, o que contém em si a intuição e a criatividade, o que nutre e cuida, cujas formas serão de não violência, de respeito mútuo e de produção pacífica.

A reconstrução de um conceito que não sobrecarregue a feminilidade começa no ato de dizer NÃO.
Não a toda e qualquer forma de exploração, quer seja de origem masculina ou feminina pois entenderemos que a base desta se formou em nossa própria permissividade de outrora.
Dizer NÂO, ao condicionamento publicitário, às influências externas, à pressão do perfeito para podermos ser verdadeiras em cada passo, metabolizando mudanças honestas em um compromisso maior com a nossa evolução enquanto seres humanos.
Reescreveremos a história da mulher à medida que perdermos as nossas concepções equivocadas e chegarmos à clareza do que somos e do que queremos para nós realmente!

"Dizer não pode ser o ato definitivo de
cuidado consigo mesmo."

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