MULHER 2002
NOVAS VIAS DE REFLEXÃO
Maria de Fátima Seehagen

O Dia Internacional da Mulher simboliza a luta pela igualdade de direitos entre homens e mulheres. E não se pode dizer que se trate de uma luta do passado.

145 anos nos separam do dia 8 de Março de 1857 em que teve lugar aquela que terá sido, em todo o mundo, uma das primeiras ações organizadas por trabalhadores do sexo feminino, onde centenas de mulheres das fábricas de vestuário e têxteis de Nova Iorque iniciaram uma marcha de protesto contra os baixos salários, o período de 12 horas diárias e as más condições de trabalho. Sabemos que a manifestação foi violentamente dispersada pela polícia. O que representam hoje estes anos? Como seria hoje? Por que insistimos nesta busca pela igualdade?

A realidade mostra um comportamento, tido como natural, ligado à questão da subordinação da população feminina. O fato é que muitas mulheres, além de serem segregadas no mercado de trabalho, são ainda as principais vítimas de agressões sexuais.

A violência contra a mulher, entendida também como uma patologia social com caráter epidêmico ( OMS) atravessa classes sociais, raças, etnias e gerações. Isto é, para mim, uma constatação estarrecedora.

Com a convicção de que a arte tudo registrou, em todos os tempos, tento encontrar um ponto de partida, de alguma forma retratado na história da arte. Não que este fosse um momento histórico mas por que considero que se soubéssemos o início talvez conseguíssemos desfazer o nó que nos prende afetando o bem-estar, a segurança, o crescimento pessoal e a auto-estima feminina. Onde o início? Por quê?

As representações da mulher pela arte, mesmo com os disfarces próprios de cada época ou escola, evocaram o feminino muito mais ligado à fertilidade e sensualidade do que à feminilidade propriamente dita. A questão do feminino, do corpo e da sexualidade foi olhada de maneira diferente pelas mais diversas vertentes artísticas: da representação idealizada do início do século XIX, passando pelo movimento surrealista até as mais recentes investigações da "bodyart" e das instalações, delineia-se um processo que nos permite falar de uma eclosão da sexualidade na arte do século XX.

Não é de assombrar quando hoje milhares de out-doors, pinturas, vídeos, fotografias e não sei mais quantas representações artísticas nos esmagam com exigências ditadas por uma sensualidade desenfreada .
O início?
Creio que não o encontraremos jamais.
Muita tinta... muito sangue... já estamparam em gravuras grotescas a nossa história .

Não, sei que não é com censura que conseguiremos dar um novo rosto para a mulher. A arte criou simbologias que fazem crer que até mesmo o pressentimento da nudez pode ser mais interessante do que a nudez propriamente dita.
A ordem é : ser sensual.

Romper esta linguagem introjetada que perpetua a repressão da mulher como mero objeto idealizado do desejo pode levá-la a sair do estado inerte para provocar a transformação necessária.

Não sabemos como começou mas, certamente podemos mudar. Recomeçar.
A data é uma excelente oportunidade para começarmos a abrir novas vias de reflexão.

Não se trata de lutarmos por igualdade e sim por respeito. Respeito pelo outro naquilo que ele representa de mais individual de tal maneira que não hajam mais apelos à submissão e à obediência irrestritas. Respeito a valores que nós mesmas devemos externar no enfrentamento das experiências do cotidiano, do banal, do ordinário como mulheres nada monumentais, enraizadas na rotina da vida diária celebrando a resistência das mulheres que utilizam suas forças espirituais para ultrapassar sua condição presente .

"Quem anda no trilho é trem de ferro,
sou água que corre entre pedras:
liberdade caça jeito."

Manoel de Barros

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