O que é um filme livre?
Marcelo Ikeda*

Quando nos deparamos com a realização de uma Mostra do Filme Livre, a primeira pergunta que imediatamente nos vem à cabeça é:

-o que vem a ser um filme livre??

Ora, se consultarmos um dicionário, veremos que liberdade é o poder de fazer ou deixar de fazer alguma coisa; livre-arbítrio?. Nesse sentido, nosso conceito de liberdade se relaciona a um respeito à diferença, uma tolerância. Isto é, a possibilidade de se conviver com a diferença. Num mundo que se diz globalizado, os produtos audiovisuais são cada vez mais uniformizados. De um lado, existe o cinemão americano, que domina cerca de 90% dos mercados mundiais. De outro, existe, especialmente em nosso país, o império da televisão, e, na questão narrativa, o domínio das telenovelas. Tanto o cinemão americano como a televisão, em geral, impõem ao espectador um modelo padronizado de narrativa e linguagem. O risco da padronização é exatamente o de guetificar a diferença, ou querer transformá-la em uma anormalidade.

Por isso, muitas vezes, quando se assiste a um filme que escapa desse tipo de padrão, tende-se a vê-lo como um filme ruim, apenas porque não se encaixa no que se vende como "bom". Um modelo, dentro de tantos outros modelos possíveis para uma obra audiovisual, passa a ser o único modelo tolerável: para que o filme seja bom, é preciso que seja como o espectador espera que ele seja. Se se foge desse padrão, o filme não serve...

Um filme livre é de certa forma um filme de resistência, no sentido de proporcionar ao espectador uma experiência da diversidade. Um dos principais desafios de um filme livre é alertar o público da possibilidade da diferença e de quanto é saudável sua existência, num processo inclusive de formação crítica do indivíduo e de cidadania, ao permitir o acesso a outras visões e ter uma real possibilidade de escolha. Numa era de diferenciação de produtos como uma estratégia de marketing, vamos a um multiplex e nos deparamos com dez filmes diferentes. No entanto, muitas vezes, não percebemos que em última instância não estamos escolhendo. Todos os dez filmes na verdade são o mesmo filme.

Por isso, a idéia principal de uma Mostra do Filme Livre é abrir um espaço a um conjunto de filmes que raramente são exibidos. Permitir o acesso a esses filmes, que rumam numa contra-corrente de um cinema padronizado e previsível, é uma possibilidade de democratizar o acesso ao audiovisual, é plantar sementes que nos levem a requestionar a possibilidade de alternativas, e do respeito à diversidade e à diferença. Esforço mais que necessário, fundamental aos dias de hoje.

* Marcelo Ikeda, curador da Mostra do Filme Livre.
mail:
claquete@hotmail.com

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