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O Efeito Borboleta e a Cultura de um Povo
Fernando Ribeiro
Em
1889, no aniversário de sessenta anos do Rei da Noruega e da Suécia, um
proeminente matemático de Estocolmo propôs um grande prêmio ao vencedor
de uma competição. O desafio consistia em obter solução para quatro enigmas,
um dos quais era demonstrar matematicamente se o sistema solar era ou
não um sistema estável. Apesar de ninguém ter conseguido responder a essa
questão, o matemático francês Henri Poincaré ganhou o prêmio por ter feito
um grande avanço na matemática daquela época. Ele dizia que pequenas diferenças
nas condições iniciais de qualquer fenômeno, produzem grandes efeitos
finais. Por exemplo, influências ínfimas de pequenos corpos como cometas
ou asteróides entrando no sistema solar poderiam, num prazo relativamente
curto, desestabilizá-lo completamente.
No inicio da década de 1960 o meteorologista norte americano Edward Lorenz
fazia pesquisas com a previsão do tempo em computadores. Ele descobriu
que variações imperceptíveis nos valores de pressões e temperaturas colhidas
e incluídas na entrada de dados de uma rodada de previsão do clima podiam,
em questão de poucos dias, exercer uma influência tremenda no resultado
das previsões. A esse fenômeno ele deu o nome de “Efeito Borboleta”. Ele
usou o nome baseado na sensibilidade de pequenas variações que comportavam
um enorme efeito no futuro próximo, de forma que o redemoinho produzido
pelas batidas das asas de uma borboleta numa floresta tropical no Brasil
poderia ser a causa de uma alteração no tempo previsto para Londres meses
depois. Entretanto, foi o matemático James York que, em 1970, lendo o
artigo de Lorenz de anos atrás e conhecido somente no âmbito dos meteorologistas,
divulgou esses estudos na comunidade científica ao introduzir a teoria
do caos, a qual pretendia explicar esse tipo de fenômeno. Os sistemas
ditos caóticos são sistemas matematicamente imprevisíveis. Até hoje não
existe solução para esse tipo de problema.
Os matemáticos se esqueceram de que eles mesmos, em tempos longínquos,
já haviam instituído os chamados “números irracionais”, cujo nome evidencia
seu próprio veredicto, pois jamais serão resolvidos pela razão. Como exemplo
temos o numero “Pi”, que não foi decifrado matematicamente nem mesmo pelos
mais modernos dos supercomputadores atuais. Os cálculos, nos volumes impensáveis
que essas máquinas produzem atualmente, não são suficientes para resolver,
racionalizando, a perfeição das proporções do círculo por exemplo. Escapa
à máquina, e aos homens que a construíram, a possibilidade de uma compreensão,
por ser essa compreensão por demais racional. A proporção áurea é outro
exemplo disso. O numero “Phi” e a seqüência de Fibonacci estão presentes
nas flores, frutos, cristais, e em todas as formas vivas, além de aparecerem
nas verdadeiras obras de arte, conservando seu misterioso encanto.
Apesar disso, o nosso sistema solar está em equilíbrio a milhões de anos.
As leis da natureza atuam de forma viva, mantendo tudo em perfeito funcionamento.
E não só o sistema solar como a terra inteira, caso o ser humano não interfira
aí com sua presunção desmedida, sem nenhum conhecimento de causa, estragando
o que outrora era perfeito. Em geral, pode-se afirmar que falta aos homens
a humildade necessária para descobrir a simplicidade das leis perfeitas,
que submetem tudo o que conhecemos e que ainda iremos conhecer.
Temos a obrigação de decifrar a Vontade do Criador, que se manifesta nas
leis da natureza, submetendo-nos à elas voluntariamente. Para tanto, é
necessário algo mais do que o intelecto com o seu raciocínio frio e limitado.
É necessário dar a honra da perfeição ao Criador, e com humildade atentar
à intuição que provém do nosso espírito, a fim compreender corretamente
as leis Divinas que se refletem na natureza.
As culturas de todas a civilizações padecem de um grande mal, onde as
pequenas causas do passado produzem a catástrofe atual, a qual presenciamos
aumentar cada vez mais. A palavra cultura significa ato de cultivar. É
um conjunto de padrões de comportamento, instituições e valores morais
característicos de uma sociedade. Em nenhum desses conceitos deve estar
incluído qualquer desvalor, vício ou falta de responsabilidade. Infelizmente,
o que se vê por toda a parte é um excesso de desvalores tidos como “culturais”.
Pequenos desvalores foram mesclados imperceptivelmente, séculos atrás,
instituindo a falsa cultura que hoje degeneram povos inteiros. Como exemplo,
vemos como o excesso de tolerância, peculiar dos povos latinos, em não
exigir dos filhos um comportamento mais responsável, em contraste com
a orientação mais exigente dos povos nórdicos. Essa fraqueza acarretou
uma aberração nefasta. O costume de defender pequenas faltas dentro da
família deu origem aos crimes da “cosa nostra” comprovadamente praticados
já desde o século XV, conforme registros históricos.
Precisamos rever de que consiste cada um dos atuais valores da nossa cultura
e atualizá-la corretamente para poder ministrá-la na consciência dos jovens,
através de uma nova educação que expurgue todos os males ocultos. Podemos
imaginar como lentamente o simples descaso aos animais e plantas culminou
no crime generalizado que hoje se comete contra a fauna e a flora. Chegou
ao monstruoso ato das touradas na Espanha, cuja crueldade é protegida
por leis do Estado.
Se eliminarmos os falsos valores faremos da decantada cidadania uma força
verdadeiramente construtiva, podendo mudar um país inteiro em pouco tempo.
Abaixo, segue uma exígua lista de alguns despropósitos atuais que a muitos
parecerá uma comicidade pretender erradicar. Com o tempo acabaram gravados
como que a ferro e a fogo na alma da maioria das pessoas. Comportamentos
que o povo brasileiro acostumou a aceitar, mas que agora surgem como efeitos
borboleta a partir das pequenas mentiras e deslizes aparentemente sem
grande importância em tempos remotos. Isso está nos levando ao caos generalizado.
• A convicção de que a capacidade de improvisação faz do brasileiro um
vencedor. Achar sempre ser melhor que os outros é na verdade sinal de
um forte complexo de inferioridade. Esse conceito somado nas multidões
forma a opinião pública, que pretende culpar países mais organizados pelo
insucesso e desorganização existente em nosso próprio País.
• Levar vantagem sempre é a lei da esperteza. Isso é uma praga nacional.
Não há nenhuma noção de que prejudicar o próximo é falta total de cultura.
Isso se traduz em tentar dar sempre um jeitinho em tudo, nas filas ou
ao esconder uma falta qualquer, até no mínimo ato de jogar no chão um
envelope de uma balinha. É a semente que causa mais tarde o desrespeito
geral à limpeza, à poluição, pichações, etc., levando a sociedade a uma
total desorganização. Nesta atitude, aparentemente inócua, está claramente
evidenciado o efeito borboleta que castiga o povo do Brasil. • O problema
do álcool e a mentalidade da juventude atual. Deve-se ir às “baladas”
com a mesma assiduidade e seriedade de acompanhar aulas para seu próprio
desenvolvimento e progresso. As sanções legais por dirigir alcoolizado
no Brasil, por exemplo, são ridículas; não se algema ninguém bêbado, mesmo
quando pego em flagrante. A desconcertante puerilidade em tratar das pequenas
e grandes coisas com seriedade levou o legislativo a se omitir frente
a realidade nacional. De pasmar e de chorar: a nossa cultura permite sancionar
leis que pegam e que não pegam!
• O carnaval. Com seu costume de pisotear a feminilidade pela exploração
da mulher, essa “festa” soterra o que devia ser cultivado como o mais
autêntico sinal de nobreza de um povo. O povo que desvirtua a feminilidade
está fadado à destruição. E' a cultura da falta de responsabilidade comportamental.
Com a mãe e a irmã se exige respeito, mas com os outros, que não são da
família, vale tudo. Nas festas de carnaval ou nas chamadas “rave” a impunidade
é geral, todos abrem mão dos mais comezinhos princípios que em casa ainda
observam. Devemos valorizar a mulher brasileira e não exibi-la como o
troféu mais desejado do planeta. Podemos voltar ao saudável folclore original
da alegria, sem os abusos que se cometem atualmente, inclusive na música
e na exacerbação do desgaste físico, dançando até cair.
• A industria do futebol e de outros esportes. Isso se tornou plena idolatria.
Pelo excesso, as gangues de torcedores se combatem e se matam mutuamente
para defender a honra de suas bandeiras que na realidade não significam
absolutamente nada.
Finalmente é necessário, principalmente no nosso Brasil, abandonar a atual
atitude pueril e tolerante onde grande parte percebe o que está errado,
mas não toma uma posição corajosa, nem que seja apenas pelo exemplo, para
provocar finalmente alguma mudança. Enquanto ainda nos resta um tempo,
devemos cada um por si fazer a sua parte nessa enorme tarefa de conscientização.
Devemos também ser impiedosos conosco mesmos, nas pequenas coisas, buscando
as falhas em nós mesmos. Isto será a única saída para não perecer na grande
catástrofe que se aproxima, causada originalmente pelo simples surgimento
da vaidade e da presunção entre nós seres humanos.
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