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Carta
da Terra
ÚLTIMA
VERSÃO EM PORTUGUÊS (MAIO/00)
PREÂMBULO
Estamos diante de um momento crítico na história da Terra, numa época
em que a humanidade deve escolher o seu futuro. À medida que o mundo torna-se
cada vez mais interdependente e frágil, o futuro enfrenta, ao mesmo tempo,
grandes perigos e grandes promessas. Para seguir adiante, devemos reconhecer
que no meio da uma magnifica diversidade de culturas e formas de vida,
somos uma família humana e uma comunidade terrestre com um destino comum.
Devemos somar forças para gerar uma sociedade sustentável global baseada
no respeito pela natureza, nos direitos humanos universais, na justiça
econômica e numa cultura da paz. Para chegar a este propósito, é imperativo
que, nós, os povos da Terra, declaremos nossa responsabilidade uns para
com os outros, com a grande comunidade da vida, e com as futuras gerações.
Terra, Nosso Lar A humanidade é parte de um vasto universo em evolução.
A Terra, nosso lar, está viva com uma comunidade de vida única. As forças
da natureza fazem da existência uma aventura exigente e incerta, mas a
Terra providenciou as condições essenciais para a evolução da vida. A
capacidade de recuperação da comunidade da vida e o bem-estar da humanidade
dependem da preservação de uma biosfera saudável com todos seus sistemas
ecológicos, uma rica variedade de plantas e animais, solos férteis, águas
puras e ar limpo. O meio ambiente global com seus recursos finitos é uma
preocupação comum de todas as pessoas. A proteção da vitalidade, diversidade
e beleza da Terra é um dever sagrado. A Situação Global Os padrões dominantes
de produção e consumo estão causando devastação ambiental, redução dos
recursos e uma massiva extinção de espécies. Comunidades estão sendo arruinadas.
Os benefícios do desenvolvimento não estão sendo divididos eqüitativamente
e o fosso entre ricos e pobres está aumentando. A injustiça, a pobreza,
a ignorância e os conflitos violentos têm aumentado e é causa de grande
sofrimento. O crescimento sem precedentes da população humana tem sobrecarregado
os sistemas ecológico e social. As bases da segurança global estão ameaçadas.
Essas tendências são perigosas, mas não inevitáveis. Desafios Para o Futuro
A escolha é nossa: formar uma aliança global para cuidar da Terra e uns
dos outros, ou arriscar a nossa destruição e a da diversidade da vida.
São necessárias mudanças fundamentais dos nossos valores, instituições
e modos de vida. Devemos entender que quando as necessidades básicas forem
atingidas, o desenvolvimento humano é primariamente ser mais, não, ter
mais. Temos o conhecimento e a tecnologia necessários para abastecer a
todos e reduzir nossos impactos ao meio ambiente. O surgimento de uma
sociedade civil global está criando novas oportunidades para construir
um mundo democrático e humano. Nossos desafios, ambientais, econômicos,
políticos, sociais e espirituais estão interligados, e juntos podemos
forjar soluções includentes. Responsabilidade Universal Para realizar
estas aspirações devemos decidir viver com um sentido de responsabilidade
universal, identificando-nos com toda a comunidade terrestre bem como
com nossa comunidade local. Somos ao mesmo tempo cidadãos de nações diferentes
e de um mundo no qual, a dimensão local e global estão ligadas. Cada um
comparte responsabilidade pelo presente e pelo futuro, pelo bem estar
da família humana e do grande mundo dos seres vivos. O espírito de solidariedade
humana e de parentesco com toda a vida é fortalecido quando vivemos com
reverência o mistério da existência, com gratidão pelo presente da vida,
e com humildade considerando o lugar que ocupa o ser humano na natureza.
Necessitamos com urgência de uma visão de valores básicos para proporcionar
um fundamento ético à emergente comunidade mundial. Portanto, juntos na
esperança, afirmamos os seguintes princípios, todos interdependentes,
visando um modo de vida sustentável como critério comum, através dos quais
a conduta de todos os indivíduos, organizações, empresas de negócios,
governos, e instituições transnacionais será guiada e avaliada.
PRINCÍPIOS
I.RESPEITAR E CUIDAR DA COMUNIDADE DE VIDA
1. Respeitar a Terra e a vida em toda sua diversidade.
a. Reconhecer que todos os seres são interligados e cada forma
de vida tem valor, independentemente do uso humano.
b. Afirmar a fé na dignidade inerente de todos os seres humanos
e no potencial intelectual, artístico, ético e espiritual da humanidade.
2. Cuidar da comunidade da vida com compreensão, compaixão e amor.
a. Aceitar que com o direito de possuir, administrar e usar os
recursos naturais vem o dever de impedir o dano causado ao meio ambiente
e de proteger o direito das pessoas.
b. Afirmar que, o aumento da liberdade, dos conhecimentos e do
poder comporta responsabilidade na promoção do bem comum.
3. Construir sociedades democráticas que sejam justas, participativas,
sustentáveis e pacíficas.
a. Assegurar que as comunidades em todos níveis garantam os direitos
humanos e as liberdades fundamentais e dar a cada a oportunidade de realizar
seu pleno potencial.
b. Promover a justiça econômica propiciando a todos a consecução
de uma subsistência significativa e segura, que seja ecologicamente responsável.
4. Garantir a generosidade e a beleza da Terra para as atuais e as
futuras gerações.
a. Reconhecer que a liberdade de ação de cada geração é condicionada
pelas necessidades das gerações futuras.
b. Transmitir às futuras gerações valores, tradições e instituições
que apoiem, a longo termo, a prosperidade das comunidades humanas e ecológicas
da Terra. Para poder cumprir estes quatro extensos compromissos, é necessario:
II. INTEGRIDADE ECOLÓGICA
5. Proteger e restaurar a integridade dos sistemas ecológicos da Terra,
com especial preocupação pela diversidade biológica e pelos processos
naturais que sustentam a vida.
a. Adotar planos e regulações de desenvolvimento sustentável em
todos os níveis que façam com que a conservação ambiental e a reabilitação
sejam parte integral de todas as iniciativas de desenvolvimento.
b. Estabelecer e proteger as reservas com uma natureza viável e
da biosfera, incluindo terras selvagens e áreas marinhas, para proteger
os sistemas de sustento à vida da Terra, manter a biodiversidade e preservar
nossa herança natural.
c. Promover a recuperação de espécies e ecossistemas em perigo.
d. Controlar e erradicar organismos não-nativos ou modificados
geneticamente que causem dano às espécies nativas, ao meio ambiente, e
prevenir a introdução desses organismos daninhos.
e. Manejar o uso de recursos renováveis como a água, solo, produtos
florestais e a vida marinha com maneiras que não excedam as taxas de regeneração
e que protejam a sanidade dos ecossistemas.
f. Manejar a extração e uso de recursos não renováveis como minerais
e combustíveis fósseis de forma que diminua a exaustão e não cause sério
dano ambiental.
6. Prevenir o dano ao ambiente como o melhor método de proteção ambiental
e quando o conhecimento for limitado, tomar o caminho da prudência.
a. Orientar ações para evitar a possibilidade de sérios ou irreversíveis
danos ambientais mesmo quando a informação científica seja incompleta
ou não conclusiva.
b. Impor o ônus da prova àqueles que afirmam que a atividade proposta
não causará dano significativo e fazer com que os grupos sejam responsabilizados
pelo dano ambiental.
c. Garantir que a decisão a ser tomada se oriente pelas conseqüências
humanas globais, cumulativas, de longo termo, indiretas e de longa distância.
d. Impedir a poluição de qualquer parte do meio ambiente e não
permitir o aumento de substâncias radioativas, tóxicas ou outras substâncias
perigosas.
e. Evitar que atividades militares causem dano ao meio ambiente.
7. Adotar padrões de produção, consumo e reprodução que protejam as
capacidades regenerativas da Terra, os direitos humanos e o bem-estar
comunitário.
a. Reduzir, reutilizar e reciclar materiais usados nos sistemas
de produção e consumo e garantir que os resíduos possam ser assimilados
pelos sistemas ecológicos.
b. Atuar com restrição e eficiência no uso de energia e recorrer
cada vez mais aos recursos energéticos renováveis como a energia solar
e do vento.
c. Promover o desenvolvimento, a adoção e a transferência eqüitativa
de tecnologias ambientais saudáveis.
d. Incluir totalmente os custos ambientais e sociais de bens e
serviços no preço de venda e habilitar aos consumidores identificar produtos
que satisfaçam as mais altas normas sociais e ambientais.
e. Garantir acesso universal ao cuidado da saúde que fomente a
saúde reprodutiva e a reprodução responsável.
f. Adotar estilos de vida que acentuem a qualidade de vida e o
suficiente material num mundo finito.
8. Avançar o estudo da sustentabilidade ecológica e promover a troca
aberta e uma ampla aplicação do conhecimento adquirido.
a. Apoiar a cooperação científica e técnica internacional relacionada
à sustentabilidade, com especial atenção às necessidades das nações em
desenvolvimento.
b. Reconhecer e preservar os conhecimentos tradicionais e a sabedoria
espiritual em todas as culturas que contribuem para a proteção ambiental
e o bem-estar humano.
c. Garantir que informações de vital importância para a saúde humana
e para a proteção ambiental, incluindo informação genética, estejam disponíveis
ao domínio público.
III. JUSTIÇA SOCIAL E ECONÔMICA
9. Erradicar a pobreza como um imperativo ético, social, econômico
e ambiental.
a. Garantir o direito à água potável, ao ar puro, à segurança alimentar,
aos solos não contaminados, ao abrigo e saneamento seguro, distribuindo
os recursos nacionais e internacionais requeridos.
b. Prover cada ser humano de educação e recursos para assegurar
uma subsistência sustentável, e dar seguro social [médico] e segurança
coletiva a todos aqueles que não são capazes de manter-se a si mesmos.
c. Reconhecer ao ignorado, proteger o vulnerável, servir àqueles
que sofrem, e permitir-lhes desenvolver suas capacidades e alcançar suas
aspirações.
10. Garantir que as atividades econômicas e instituições em todos os
níveis promovam o desenvolvimento humano de forma eqüitativa e sustentável.
a. Promover a distribuição eqüitativa da riqueza dentro e entre
nações. b. Incrementar os recursos intelectuais, financeiros, técnicos
e sociais das nações em desenvolvimento e aliviar as dívidas internacionais
onerosas.
c. Garantir que todas as transações comerciais apoiem o uso de
recursos sustentáveis, a proteção ambiental e normas laborais progressistas.
d. Exigir que corporações multinacionais e organizações financeiras
internacionais atuem com transparência em benefício do bem comum e responsabilizá-las
pelas conseqüências de suas atividades.
11. Afirmar a igualdade e a eqüidade de gênero como pré-requisitos
para o desenvolvimento sustentável e assegurar o acesso universal à educação,
ao cuidado da saúde e às oportunidades econômicas.
a. Assegurar os direitos humanos das mulheres e das meninas
e acabar com toda violência contra elas.
b. Promover a participação ativa das mulheres em todos os aspectos
da vida econômica, política, civil, social e cultural como parceiros plenos
e paritários, tomadores de decisão, líderes e beneficiários.
c. Fortalecer as famílias e garantir a segurança e a criação amorosa
de todos os membros da família.
12. Defender, sem discriminação, os direitos de todas as pessoas a
um ambiente natural e social, capaz de assegurar a dignidade humana, a
saúde corporal e o bem-estar espiritual, dando especial atenção aos direitos
dos povos indígenas e minorias.
a. Eliminar a discriminação em todas suas formas, como as baseadas
na raça, cor, gênero, orientação sexual, religião, idioma e origem nacional,
étnica ou social.
b. Afirmar o direito dos povos indígenas à sua espiritualidade,
conhecimentos, terras e recursos, assim como às suas práticas relacionadas
a formas sustentáveis de vida.
c. Honrar e apoiar os jovens das nossas comunidades, habilitando-os
para cumprir seu papel essencial na criação de sociedades sustentáveis.
d. Proteger e restaurar lugares notáveis, de significado cultural
e espiritual.
IV.DEMOCRACIA, NÃO VIOLÊNCIA E PAZ
13. Fortalecer as instituições democráticas em todos os níveis e proporcionar-lhes
transparência e prestação de contas no exercício do governo, a participação
inclusiva na tomada de decisões e no acesso à justiça.
a. Defender o direito a todas as pessoas de receber informação
clara e oportuna sobre assuntos ambientais e todos os planos de desenvolvimento
e atividades que poderiam afetá-las ou nos quais tivessem interesse.
b. Apoiar sociedades locais, regionais e globais e promover a participação
significativa de todos os indivíduos e organizações na toma de decisões.
c. Proteger os direitos à liberdade de opinião, de expressão, de
assembléia pacífica, de associação e de oposição [ ou discordância].
d. Instituir o acesso efetivo e eficiente a procedimentos administrativos
e judiciais independentes, incluindo mediação e retificação dos danos
ambientais e da ameaça de tais danos.
e. Eliminar a corrupção em todas as instituições públicas e privadas.
f. Fortalecer as comunidades locais, habilitando-as a cuidar dos
seus próprios ambientes e designar responsabilidades ambientais a nível
governamental onde possam ser cumpridas mais efetivamente.
14. Integrar na educação formal e aprendizagem ao longo da vida, os
conhecimentos, valores e habilidades necessárias para um modo de vida
sustentável.
a. Oferecer a todos, especialmente a crianças e a jovens, oportunidades
educativas que possibilite contribuir ativamente para o desenvolvimento
sustentável.
b. Promover a contribuição das artes e humanidades assim como das
ciências na educação sustentável.
c. Intensificar o papel dos meios de comunicação de massas no sentido
de aumentar a conscientização dos desafios ecológicos e sociais.
d. Reconhecer a importância da educação moral e espiritual para
uma subsistência sustentável.
15. Tratar todos os seres vivos com respeito e consideração.
a. Impedir crueldades aos animais mantidos em sociedades humanas e
diminuir seus sofrimentos.
b. Proteger animais selvagens de métodos de caça, armadilhas e pesca
que causem sofrimento externo, prolongado o evitável.
16. Promover uma cultura de tolerância, não violência e paz.
a. Estimular e apoiar o entendimento mútuo, a solidariedade e a
cooperação entre todas as pessoas, dentro das e entre as nações. b.Implementar
estratégias amplas para prevenir conflitos violentos e usar a colaboração
na resolução de problemas para manejar e resolver conflitos ambientais
e outras disputas.
c.Desmilitarizar os sistemas de segurança nacional até chegar ao
nível de uma postura não-provocativa da defesa e converter os recursos
militares em propósitos pacíficos, incluindo restauração ecológica. d.
d.Eliminar armas nucleares, biológicas e tóxicas e outras armas
de destruição em massa.
.e.Assegurar que o uso do espaço orbital e cósmico mantenha a proteção
ambiental e a paz.
f. Reconhecer que a paz é a plenitude criada por relações corretas
consigo mesmo, com outras pessoas, outras culturas, outras vidas, com
a Terra e com a totalidade maior da qual somos parte.
O CAMINHO ADIANTE
Como nunca antes na história, o destino comum nos conclama a buscar um
novo começo. Tal renovação é a promessa dos princípios da Carta da Terra.
Para cumprir esta promessa, temos que nos comprometer a adotar e promover
os valores e objetivos da Carta. Isto requer uma mudança na mente e no
coração. Requer um novo sentido de interdependência global e de responsabilidade
universal. Devemos desenvolver e aplicar com imaginação a visão de um
modo de vida sustentável aos níveis local, nacional, regional e global.
Nossa diversidade cultural é uma herança preciosa, e diferentes culturas
encontrarão suas próprias e distintas formas de realizar esta visão. Devemos
aprofundar e expandir o diálogo global gerado pela Carta da Terra, porque
temos muito que aprender a partir da busca iminente e conjunta por verdade
e sabedoria. A vida muitas vezes envolve tensões entre valores importantes.
Isto pode significar escolhas difíceis. Porém, necessitamos encontrar
caminhos para harmonizar a diversidade com a unidade, o exercício da liberdade
com o bem comum, objetivos de curto prazo com metas de longo prazo. Todo
indivíduo, família, organização e comunidade têm um papel vital a desempenhar.
As artes, as ciências, as religiões, as instituições educativas, os meios
de comunicação, as empresas, as organizações não-governamentais e os governos
são todos chamados a oferecer uma liderança criativa. A parceria entre
governo, sociedade civil e empresas é essencial para uma governabilidade
efetiva. Para construir uma comunidade global sustentável, as nações do
mundo devem renovar seu compromisso com as Nações Unidas, cumprir com
suas obrigações respeitando os acordos internacionais existentes e apoiar
a implementação dos princípios da Carta da Terra com um instrumento internacional
legalmente unificador quanto ao ambiente e ao desenvolvimento. Que o nosso
tempo seja lembrado pelo despertar de uma nova reverência face à vida,
pelo compromisso firme de alcançar a sustentabilidade, a intensificação
da luta pela justiça e pela paz, e a alegre celebração da vida.
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