A QUESTÃO INDÍGENA NA ESCOLA: ATUALIZANDO PRECONCEITO.
Profª. Ana Paula de Oliveira Lopes*

Jogamos tua Língua
Nas covas do silêncio
E os teus sobreviventes
À beira das estradas,
À beira dos viventes ...
Mão-de-obra barata
Nas fazendas e usinas
Nos bordéis e nas fábricas;
Mendigos, periferias
Das cidades sem almas;
(...) E nós te reduzimos
Em Vítimas e Reservas
Em Parque zoológicos,
Em Arquivo-poeira
E nós te embreagamos
De cachaça e desprezo (...).

Pedro Casaldálica e Pedro Tierra ( 2000: 69-75)

Em um novo livro de poesias/denúncia - Ameríndia: Morte e Vida, Pedro Casaldáliga e Pedro Tierra nos ajudam a desenhar a caminhada histórica de contato/ conflito dos povos indígenas da América Latina, do Brasil e mais especificamente de Mato Grosso. Povos marcados por uma política colonizadora violenta quanto aos seus seus direitos fundamentais, tais como o direito à terra, de comunicar com os seus códigos lingüísticos e em poderem Ser sociedade com culturas diferenciadas. O que pretendemos nesta comunicação é perceber a abordagem dos educadores a cerca desse tema, da questão indígena. Situando a questão indígena Ao colocarmos os olhos na história dos 500 anos da entrada dos portugueses no território que hoje denominamos Brasil, é imprescindível pensarmos nos genocídios e etnocídios que ocorreram e ocorrem ao longo do processo de contato e conflito com as populações indígenas. Segundo pesquisadores, as estimativas populacionais do final do século XV, indicavam uma variação de 1.100.000 a 2.431.000 índios. Pelos dados de 1940 estima-se terem existido 500.000 indígenas no Brasil em 1950, segundo Darcy Ribeiro, haviam entre 68.100 e 99.700, distribuídas entre 142 etnias. Hoje pelos dados da Funai (Fundação Nacional do Índio) a população indígena do Brasil é de aproximadamente 325.652 indígenas em 215 grupos étnicos, que representam apenas 0,02% da população nacional. Em Mato Grosso existem 38 grupos, que significam 25.000 índios, além de 9 referências (informações) sobre grupos isolados. Os grupos indígenas do Brasil estão distribuídos em 554 áreas, que abrangem 964.452 quilômetros quadrados, ou 11,12% do território nacional. Entretanto, mais da metade dessas terras ainda não foram sequer demarcadas e várias delas encontram-se parcialmente invadidos e explorados por fazendeiros, garimpeiros, madeireiros e posseiros. Um olhar sobre esses dados evidencia a política oficial de dizimação das populações empreendida direta ou indiretamente pela política governamental do Brasil. Hoje, as populações indígenas vivem um outro momento na luta pelo seus direitos, tais como a uma educação com respeito à diversidade cultural (experiência como o Projeto Tucum e a Licenciatura de Formação de Professores Indígena), o fortalecimento para não mais esconder sua identidade étnica, a exemplo dos índios Xocó do estado de Sergipe dos Tremembé no Ceará, e a retomada dos territórios Chiquitano e Guató em Mato Grosso. Além dos jovens indígenas ( Pareci, BaKairi, Bororo, Xavante e Nambikwara) que, morando na cidade, estão fazendo cursinho preparatório para o ingresso na universidade pública e privada. Eles buscam capacitar-se para poder utilizar os instrumentais da ciência na busca de garantir a dignidade de vida dos seus povos, além da incessável e incansável luta para garantir a regulamentação e posse das suas terras. Diante desta realidade concreta como e quando são enfocados as questões indígenas no ambiente escolar? Pelos parâmetros curriculares nacionais, a questão da pluralidade cultural é um dos temas a serem tratados pelos educadores, dizendo respeito "ao conhecimento e à valorização de características étnicas e culturais dos diferentes grupos sociais que convivem no território nacional, às desigualdades socioeconômicas e à crítica às relações sociais discriminatórias e excludentes que permeiam a sociedade brasileira, oferecendo ao aluno a possibilidade de conhecer o Brasil como um país complexo e multifacetado". Comparando a meta proposta pelo MEC quanto às propostas dos Parâmetros Curriculares Nacionais com uma série de entrevistas realizadas no Museu Rondon na semana do Índio em 1999, constata-se que a questão indígena não faz parte do currículo de formação dos professores. Essa constatação revela uma ausência quase absoluta, por partes dos professores, de estudos e pesquisas, assim como informações básicas sobre as populações e seus territórios. Entendemos por questões indígenas o conjunto de problemas que as diversas populações vêm sofrendo cotidianamente, como invasão de garimpeiros, madeireiros, e fazendeiros em territórios indígenas, a luta pela demarcação de terras, problemas como o alcoolismo, a desnutrição, outras doenças e o preconceito em geral. A construção de estradas que atravessam terras indígenas, hidrelétricas e hidrovias, como a Paraná-Paraguai e a Araguaia-Tocantins, que podem reduzir ou inundar muitas áreas. além de questões relacionadas à educação e reafirmação das identidades étnicas. Nas entrevistas no Museu Rondon, os professores e alunos mergulhavam na estética e na percepção na cultura material das sociedades do nosso estado, acompanhados pelas explicações sobre determinados objetos, e nas especificidades de cada sociedade indígena. Essas visitas foram acompanhadas por estagiário do curso de Turismo (ETF) e os índios Paresi e BaKairi, que trabalham no Museu. O público alvo foram professores da rede pública e privada da capital e a grande maioria leciona nas séries iniciais do ensino fundamental.
As entrevistas tiveram como base as seguintes orientações.
1. Identificação do professor e da escola ( se pública ou privada); série em que leciona e o número de alunos.
2. Se foi a primeira vez que visitaram o Museu
3. Se foi uma iniciativa da direção da Escola ou dos Professores.
4. Se a escola desenvolve atividades internas na Semana do Índio
5. Se a escola tem algum aluno indígena
6. Se o professor ou a professora tem curso superior. Onde?
7. Se tem acesso a algum material didático específico.
8. Se já fez alguma visita em aldeia indígena.
9. Se saberia dizer o nome de pelo menos três sociedades indígenas de Mato Grosso
10. Qual a principal fonte de informação em relação às questões indígenas (jornais, revistas, TV, rádio, internet, livros específicos e cursos).
11. Conhece alguém que conviveu com alguma sociedade indígena de Mato Grosso?
12. Qual é a visão que os seus alunos têm em relação ao índio? Eles têm algum preconceito?
O que buscou-se diagnosticar nestas entrevistas foi os caminhos para a construção do saber desses professores em relação à esta temática, e o investimento da escola nessas construções. Em que medida a escola não contribui para consolidar preconceitos historicamente construídos? Focando os resultados. A grande maioria dos professores tem formação universitária (UNIC, UNIVAG, UFMT, UNEMAT) e fora de Mato Grosso em Jales, Presidente Prudente (SP), principalmente nas áreas de pedagogia, história e geografia. Alguns cursam pós-graduação, como por exemplo filosofia, história na UNIVAG, ICE e UFMT. O estímulo a visita foi uma carta enviada pelo Museu Rondon, à direção da escola em virtude da data comemorativa de: 19 de abril, o Dia do índio. Passou-me pela lembrança aquela nossa inesquecível canção, com a seguinte frase:

"mas agora eles só tem o dia 19 de abril -
Todo dia era dia de índio".

Parece que é mais ou menos assim que se passam as discussões e debates sobre a problemática das sociedades indígenas nas escolas, são restritas às "comemorações do dia 19 de abril". As atividades internas da Semana do Índio foram inúmeras tais como, pesquisas, teatros e produção de cartazes expostos nas escolas. Porém elas não vão além da reprodução de "discursos" consagradas no livros didáticos e na imprensa como um todo. Seguem algumas respostas quanto às atividades internas da escola:
1. " trabalhamos com as crianças assim: trabalhei com eles pintura, pintamos as crianças com tinta guache.
2. "a gente tá fazendo um trabalho sobre as atividades indígenas [?], e qual é a utilidade dos índios [?] antes da chegada dos colonizadores e o espaço dos índios, como é que está e como é que era antes "
3. "Fizeram teatro, participação dos alunos. Foi só no dia do índio mesmo."

Como desdobramento de conversas, buscou-se a fonte básica de informações sobre as questões indígenas, considerando que é fundamental para a formação dos educandos.
1. "TV, jornal. E vejo também da televisão como Domingo mesmo nós assistimos na televisão o Sílvio Santos, né? Ele deu bastante explicação [?]. Ele falou sobre as flechas. Que as flechas quando pega no braço, né? Aquele veneno que ficou, ele vai subindo e acaba morrendo a pessoa".
2. "TV, jornal, revistas e livros didáticos"
3. "Mais pela televisão"
4. "Não, não temos [materiais didáticos]. O que nós usamos é ....Os professores é que se desdobram, compram cartolina, compra tinta. Por que nós não temos nada. Nada mesmo. Ë dedicação dos professores."
5. Olha eu não sei lá muita coisa sobre o índio. Né? então a gente pesquisa em livros e digo assim, não sei, muito entre aspas, porque já morei em terras indígenas, né?

No Rio Grande do Sul. Quanto à pergunta: Você poderia nos dizer nome de pelo menos três sociedades indígenas do nosso Estado?
1. Lá em Poxoréu tem a ... Sangradouro [ a localizaçÃo de Sangradouro e na estrada de Barra do Garças] , ali onde tem Bororo e Xavante.
2. Xingu [no Parque Indígena do Xingu reúnem mais de 10 sociedades indígenas], tem o Xavante, também os Nambikwara
3. Xaraés, Payaguá, kaiapó [sul] . [ Todos exterminados].

Quanto à pergunta: Qual é a visão que os seus alunos tem em relação ao índio? Tem algum preconceito?
1. "Preconceito eles não tem. Eles gostam, porque eles vem na televisão. Gostam de falar sobre índios. Eles chegam, já vão batendo na boca como que os índios fazem, grito de guerra"
2. "Acho que não tem preconceitos não. Precisa fazer eles saber conviver com os índios. Acaba sendo um preconceito, índio é ser humano igual a todos nós. Prá eles saber conviver, tratar como ser humano, porque eles têm assim preconceito".
3. [ Eles, os alunos falam:] "Prof. Eu não gosto de índio. Índio é sujo. Índio é fedido. Mas a gente tem que entender crianças, que é a cultura deles. Porque nós somos civilizados. Não é por aí. Nós estamos desenvolvidos, nós estamos no progresso. Mas é a vida nativa?. É a vida primitiva do índio que não podemos deixar morrer, não podemos deixar acabar. Por que senão a história também não tem sentido. "

Diante da constatação de a grande a maioria dos entrevistad@s têm como fonte básica de informação notícias vinculadas principalmente na imprensa, foi oportuna uma investigação na própria imprensa mato-grossense dos dados divulgados sobre a questão indígena. Segundo a pesquisa realizada em 1998, denominada a difusão da questão indígena pela imprensa mato-grossense de André Luis Alves, jornalista especialista em Antropologia pela UFMT. Afirma que: "Os assuntos indígenas são quase somente ligados a terras, seja demarcação de alguma reserva, ocupações de brancos em terras indígenas ou justamente o contrário." Outras questões, como a educação escolar e a saúde indígena são tratadas de forma esporádica e sem uma real compreensão dos fatos. Ou seja, não há interesse da mídia em assuntos que não afetem, explicitamente, o seu público consumidor. Segundo André Alves (1998) "A sociedade brasileira conhece pouco e tem introjetados muitos estereótipos e preconceitos em relação aos povos indígenas do país. Esta é uma verdade que pôde ser averiguada pelo material noticioso coletado e analisado nessa pesquisa, uma vez que a imprensa local reflete a sociedade dessa região. Assim sendo, a sociedade envolvente se interessa mais pela folclorização dos índios do que pela valorização das identidades indígenas. Mesmo nas matérias que visaram mostrar um pouco a realidade de algum grupo indígena o mais observado foi a vanglorização dos índios como "guardiões da natureza", "guerreiros" e "vítimas" dos brancos. Os índios, principais personagens das matérias analisadas, quase não foram citados como fonte, comprovando a hipótese que a imprensa não os ouve. Segundo André Luis Alves, é uma falha grave cometida pela imprensa, pois quando os jornalistas vão atrás somente das fontes oficiais (Funai, Polícia Federal e Ministério Público) as notícias têm uma tendência maior de sair enviesada. O jornalista conclui que, apesar de muitas notícias sem preconceitos e uma quantidade até surpreendente de notícias, no geral as informações, da maneira como foram reprocessadas e passadas para o público-leitor, serviram mais para reafirmar preconceitos e estereótipos que para esclarecer o leitor. Segue uma análise de uma questão ligada a s populações indígena e o seu desdobramento na imprensa, construída por André Luís Alves: "A desintrusão dos garimpeiros da reserva Sararé por agentes da Polícia Federal e da Funai, que se iniciou no dia 10 de janeiro, foi noticiada quase todos os dias, no primeiro mês de 1997, pelos dois jornais. A ação dos policiais, batizada de Operação Sararé II foi mais enfatizada do que a atividade garimpeira ilícita ou mesmo sobre quem é o povo Nambikwara. No dia 14 de janeiro de 1997, é chamada a atenção para a degradação ambiental provocada pela retirada de minérios que, segundo a imprensa, poderá levar até 40 anos para se recompor. Nesse mesmo dia, segundo denúncia da Gazeta, os Nambikwara deixam de ser vítimas, tornando-se coniventes: A extração de madeira dentro da Reserva Indígena Sararé tinha até mesmo a participação de índios e de indigenistas (ÍNDIOS CONIVENTES COM EXTRAÇÃO, A GAZETA, pág. 3-C). No dia seguinte, a reportagem do Diário informa que os índios de Sararé são violentos: ... os índios nhambiquaras (...) ameaçam espancar e matar garimpeiros que ainda estiverem na área após a saída da Polícia Federal (ÍNDIOS AMEAÇAM MATAR GARIMPEIROS QUE PERMANECEREM DENTRO DA RESERVA, DIÁRIO, pág. B-1). Este foi o único dia que o cacique Nambikwara Américo Xathitaurlu foi mostrado numa foto (e na primeira página) pela imprensa. Entretanto, a legenda é bem sugestiva: O cacique (...), armado com espingarda, ao lado dos dois filhos, ameaça os garimpeiros que continuam na Reserva Sararé (DIÁRIO, 15/01/97). A imprensa mato-grossense utilizou a Operação Sararé II para mostrar a falta de estrutura da Funai, para apontar falhas na ação da Polícia Federal e para revelar à sociedade que o garimpeiro mato-grossense ou brasileiro é apenas mais um excluído que está fora do modelo econômico (DIÁRIO, 19/01/97, PÁG. B-1). Quanto aos Nambikwara da Reserva Sararé, foi informado que eles vivem a 540 quilômetros ao noroeste de Cuiabá, possuem uma área de 67, 4 mil hectares e totalizam 79 indivíduos, entre adultos e crianças. Constitui-se prática comum na imprensa citar a população da aldeia ou de um povo e a extensão do seu território. Ao fazer isso, sem nenhuma relativização, a imprensa, reforça um preconceito em relação aos índios. Qualquer cidadão brasileiro fará a conta e verá que há quase mil hectares para cada índio Nambikwara. Uma área para fazer inveja a muitos fazendeiros e aos sem-terra. Entretanto, a imprensa não informa que a terra significa, para as sociedades indígenas, muito mais que um simples meio de subsistência. A terra, de uso coletivo, representa o suporte da vida social e está diretamente ligada ao sistema de crenças e conhecimento. O território indígena, além de ser o local onde um povo indígena garante a sua sobrevivência e se apropria dos recursos naturais existentes para se alimentar, fabricar utensílios e extrair plantas medicinais, é também um espaço simbólico em que as pessoas travam relações entre si e com seus deuses .

As respostas dos professores e a conclusão da monografia mencionada, acabaram por fortalecer a nossa hipótese: A escola é um espaço de atualização e porque não do fortalecimento do preconceito. Na mesma ocasião, das entrevistas no Museu Rondon foi construído um painel denominado "Fala estudante", muitos participaram e foram selecionadas algumas frases para que possamos analisar o ponto de vista dos alunos, dos professores entrevistados, em relação as questões indígenas.
1. "Os índios são raças inteligentíssimas"
2. "Os índios são turma de paz adoro tenho amigão índio"
3. "Sem o índio o Brasil não Ter cultura"
4. "Eu sou um descendente de índio Xavante"
5. "Aprendi que o índio é muito culto"
6. "Eu gostei principalmente dos colares de dentes. E eu achei interessante de que animais eles tiraram os dentes de animais."
7. "Índio é legal é broder véio"
8. "O índio é muito, deve ser respeitado pela sua cultura"

Diante deste cenário utilizarei finalmente das palavras de Paulo Freire;

"Gosto de ser gente porque, mesmo sabendo que as condições materiais , econômicas, sociais e políticos, culturais e ideológicos em que nos achamos geram quase sempre barreiras de difícil superação para o cumprimento de nossa tarefa histórica de mudar o mundo, sei também que os obstáculos não se eternizam."
Livro Pedagogia da autonomia, 1996
- editora Paz e Terra.

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