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QUESTÃO INDÍGENA NA ESCOLA: ATUALIZANDO PRECONCEITO.
Jogamos tua Língua Em
um novo livro de poesias/denúncia - Ameríndia: Morte e Vida, Pedro Casaldáliga
e Pedro Tierra nos ajudam a desenhar a caminhada histórica de contato/
conflito dos povos indígenas da América Latina, do Brasil e mais especificamente
de Mato Grosso. Povos marcados por uma política colonizadora violenta
quanto aos seus seus direitos fundamentais, tais como o direito à terra,
de comunicar com os seus códigos lingüísticos e em poderem Ser sociedade
com culturas diferenciadas. O que pretendemos nesta comunicação é perceber
a abordagem dos educadores a cerca desse tema, da questão indígena. Situando
a questão indígena Ao colocarmos os olhos na história dos 500 anos da
entrada dos portugueses no território que hoje denominamos Brasil, é imprescindível
pensarmos nos genocídios e etnocídios que ocorreram e ocorrem ao longo
do processo de contato e conflito com as populações indígenas. Segundo
pesquisadores, as estimativas populacionais do final do século XV, indicavam
uma variação de 1.100.000 a 2.431.000 índios. Pelos dados de 1940 estima-se
terem existido 500.000 indígenas no Brasil em 1950, segundo Darcy Ribeiro,
haviam entre 68.100 e 99.700, distribuídas entre 142 etnias. Hoje pelos
dados da Funai (Fundação Nacional do Índio) a população indígena do Brasil
é de aproximadamente 325.652 indígenas em 215 grupos étnicos, que representam
apenas 0,02% da população nacional. Em Mato Grosso existem 38 grupos,
que significam 25.000 índios, além de 9 referências (informações) sobre
grupos isolados. Os grupos indígenas do Brasil estão distribuídos em 554
áreas, que abrangem 964.452 quilômetros quadrados, ou 11,12% do território
nacional. Entretanto, mais da metade dessas terras ainda não foram sequer
demarcadas e várias delas encontram-se parcialmente invadidos e explorados
por fazendeiros, garimpeiros, madeireiros e posseiros. Um olhar sobre
esses dados evidencia a política oficial de dizimação das populações empreendida
direta ou indiretamente pela política governamental do Brasil. Hoje, as
populações indígenas vivem um outro momento na luta pelo seus direitos,
tais como a uma educação com respeito à diversidade cultural (experiência
como o Projeto Tucum e a Licenciatura de Formação de Professores Indígena),
o fortalecimento para não mais esconder sua identidade étnica, a exemplo
dos índios Xocó do estado de Sergipe dos Tremembé no Ceará, e a retomada
dos territórios Chiquitano e Guató em Mato Grosso. Além dos jovens indígenas
( Pareci, BaKairi, Bororo, Xavante e Nambikwara) que, morando na cidade,
estão fazendo cursinho preparatório para o ingresso na universidade pública
e privada. Eles buscam capacitar-se para poder utilizar os instrumentais
da ciência na busca de garantir a dignidade de vida dos seus povos, além
da incessável e incansável luta para garantir a regulamentação e posse
das suas terras. Diante desta realidade concreta como e quando são enfocados
as questões indígenas no ambiente escolar? Pelos parâmetros curriculares
nacionais, a questão da pluralidade cultural é um dos temas a serem tratados
pelos educadores, dizendo respeito "ao conhecimento e à valorização de
características étnicas e culturais dos diferentes grupos sociais que
convivem no território nacional, às desigualdades socioeconômicas e à
crítica às relações sociais discriminatórias e excludentes que permeiam
a sociedade brasileira, oferecendo ao aluno a possibilidade de conhecer
o Brasil como um país complexo e multifacetado". Comparando a meta proposta
pelo MEC quanto às propostas dos Parâmetros Curriculares Nacionais com
uma série de entrevistas realizadas no Museu Rondon na semana do Índio
em 1999, constata-se que a questão indígena não faz parte do currículo
de formação dos professores. Essa constatação revela uma ausência quase
absoluta, por partes dos professores, de estudos e pesquisas, assim como
informações básicas sobre as populações e seus territórios. Entendemos
por questões indígenas o conjunto de problemas que as diversas populações
vêm sofrendo cotidianamente, como invasão de garimpeiros, madeireiros,
e fazendeiros em territórios indígenas, a luta pela demarcação de terras,
problemas como o alcoolismo, a desnutrição, outras doenças e o preconceito
em geral. A construção de estradas que atravessam terras indígenas, hidrelétricas
e hidrovias, como a Paraná-Paraguai e a Araguaia-Tocantins, que podem
reduzir ou inundar muitas áreas. além de questões relacionadas à educação
e reafirmação das identidades étnicas. Nas entrevistas no Museu Rondon,
os professores e alunos mergulhavam na estética e na percepção na cultura
material das sociedades do nosso estado, acompanhados pelas explicações
sobre determinados objetos, e nas especificidades de cada sociedade indígena.
Essas visitas foram acompanhadas por estagiário do curso de Turismo (ETF)
e os índios Paresi e BaKairi, que trabalham no Museu. O público alvo foram
professores da rede pública e privada da capital e a grande maioria leciona
nas séries iniciais do ensino fundamental. "mas
agora eles só tem o dia 19 de abril - Parece
que é mais ou menos assim que se passam as discussões e debates sobre
a problemática das sociedades indígenas nas escolas, são restritas às
"comemorações do dia 19 de abril". As atividades internas da Semana do
Índio foram inúmeras tais como, pesquisas, teatros e produção de cartazes
expostos nas escolas. Porém elas não vão além da reprodução de "discursos"
consagradas no livros didáticos e na imprensa como um todo. Seguem algumas
respostas quanto às atividades internas da escola:
Como desdobramento de conversas, buscou-se a fonte básica de informações
sobre as questões indígenas, considerando que é fundamental para a formação
dos educandos. No
Rio Grande do Sul. Quanto à pergunta: Você poderia nos dizer nome de pelo
menos três sociedades indígenas do nosso Estado? Quanto
à pergunta: Qual é a visão que os seus alunos tem em relação ao índio?
Tem algum preconceito? Diante da constatação de a grande a maioria dos entrevistad@s têm como fonte básica de informação notícias vinculadas principalmente na imprensa, foi oportuna uma investigação na própria imprensa mato-grossense dos dados divulgados sobre a questão indígena. Segundo a pesquisa realizada em 1998, denominada a difusão da questão indígena pela imprensa mato-grossense de André Luis Alves, jornalista especialista em Antropologia pela UFMT. Afirma que: "Os assuntos indígenas são quase somente ligados a terras, seja demarcação de alguma reserva, ocupações de brancos em terras indígenas ou justamente o contrário." Outras questões, como a educação escolar e a saúde indígena são tratadas de forma esporádica e sem uma real compreensão dos fatos. Ou seja, não há interesse da mídia em assuntos que não afetem, explicitamente, o seu público consumidor. Segundo André Alves (1998) "A sociedade brasileira conhece pouco e tem introjetados muitos estereótipos e preconceitos em relação aos povos indígenas do país. Esta é uma verdade que pôde ser averiguada pelo material noticioso coletado e analisado nessa pesquisa, uma vez que a imprensa local reflete a sociedade dessa região. Assim sendo, a sociedade envolvente se interessa mais pela folclorização dos índios do que pela valorização das identidades indígenas. Mesmo nas matérias que visaram mostrar um pouco a realidade de algum grupo indígena o mais observado foi a vanglorização dos índios como "guardiões da natureza", "guerreiros" e "vítimas" dos brancos. Os índios, principais personagens das matérias analisadas, quase não foram citados como fonte, comprovando a hipótese que a imprensa não os ouve. Segundo André Luis Alves, é uma falha grave cometida pela imprensa, pois quando os jornalistas vão atrás somente das fontes oficiais (Funai, Polícia Federal e Ministério Público) as notícias têm uma tendência maior de sair enviesada. O jornalista conclui que, apesar de muitas notícias sem preconceitos e uma quantidade até surpreendente de notícias, no geral as informações, da maneira como foram reprocessadas e passadas para o público-leitor, serviram mais para reafirmar preconceitos e estereótipos que para esclarecer o leitor. Segue uma análise de uma questão ligada a s populações indígena e o seu desdobramento na imprensa, construída por André Luís Alves: "A desintrusão dos garimpeiros da reserva Sararé por agentes da Polícia Federal e da Funai, que se iniciou no dia 10 de janeiro, foi noticiada quase todos os dias, no primeiro mês de 1997, pelos dois jornais. A ação dos policiais, batizada de Operação Sararé II foi mais enfatizada do que a atividade garimpeira ilícita ou mesmo sobre quem é o povo Nambikwara. No dia 14 de janeiro de 1997, é chamada a atenção para a degradação ambiental provocada pela retirada de minérios que, segundo a imprensa, poderá levar até 40 anos para se recompor. Nesse mesmo dia, segundo denúncia da Gazeta, os Nambikwara deixam de ser vítimas, tornando-se coniventes: A extração de madeira dentro da Reserva Indígena Sararé tinha até mesmo a participação de índios e de indigenistas (ÍNDIOS CONIVENTES COM EXTRAÇÃO, A GAZETA, pág. 3-C). No dia seguinte, a reportagem do Diário informa que os índios de Sararé são violentos: ... os índios nhambiquaras (...) ameaçam espancar e matar garimpeiros que ainda estiverem na área após a saída da Polícia Federal (ÍNDIOS AMEAÇAM MATAR GARIMPEIROS QUE PERMANECEREM DENTRO DA RESERVA, DIÁRIO, pág. B-1). Este foi o único dia que o cacique Nambikwara Américo Xathitaurlu foi mostrado numa foto (e na primeira página) pela imprensa. Entretanto, a legenda é bem sugestiva: O cacique (...), armado com espingarda, ao lado dos dois filhos, ameaça os garimpeiros que continuam na Reserva Sararé (DIÁRIO, 15/01/97). A imprensa mato-grossense utilizou a Operação Sararé II para mostrar a falta de estrutura da Funai, para apontar falhas na ação da Polícia Federal e para revelar à sociedade que o garimpeiro mato-grossense ou brasileiro é apenas mais um excluído que está fora do modelo econômico (DIÁRIO, 19/01/97, PÁG. B-1). Quanto aos Nambikwara da Reserva Sararé, foi informado que eles vivem a 540 quilômetros ao noroeste de Cuiabá, possuem uma área de 67, 4 mil hectares e totalizam 79 indivíduos, entre adultos e crianças. Constitui-se prática comum na imprensa citar a população da aldeia ou de um povo e a extensão do seu território. Ao fazer isso, sem nenhuma relativização, a imprensa, reforça um preconceito em relação aos índios. Qualquer cidadão brasileiro fará a conta e verá que há quase mil hectares para cada índio Nambikwara. Uma área para fazer inveja a muitos fazendeiros e aos sem-terra. Entretanto, a imprensa não informa que a terra significa, para as sociedades indígenas, muito mais que um simples meio de subsistência. A terra, de uso coletivo, representa o suporte da vida social e está diretamente ligada ao sistema de crenças e conhecimento. O território indígena, além de ser o local onde um povo indígena garante a sua sobrevivência e se apropria dos recursos naturais existentes para se alimentar, fabricar utensílios e extrair plantas medicinais, é também um espaço simbólico em que as pessoas travam relações entre si e com seus deuses . As
respostas dos professores e a conclusão da monografia mencionada, acabaram
por fortalecer a nossa hipótese: A escola é um espaço de atualização e
porque não do fortalecimento do preconceito. Na mesma ocasião, das entrevistas
no Museu Rondon foi construído um painel denominado "Fala estudante",
muitos participaram e foram selecionadas algumas frases para que possamos
analisar o ponto de vista dos alunos, dos professores entrevistados, em
relação as questões indígenas. Diante deste cenário utilizarei finalmente das palavras de Paulo Freire; "Gosto
de ser gente porque, mesmo sabendo que as condições materiais , econômicas,
sociais e políticos, culturais e ideológicos em que nos achamos geram
quase sempre barreiras de difícil superação para o cumprimento de nossa
tarefa histórica de mudar o mundo, sei também que os obstáculos não se
eternizam." |
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