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A
TV e a erotização precoce
Sonia
Thorstensen*
Para começar, vamos definir o enfoque pelo qual abordaremos este tema:
não será aquele que implique qualquer desejo de volta da censura aos meios
de comunicação; nem um enfoque moralista ou religioso que diga o que é
certo ou errado; mas também não será um, muito em moda atualmente, no
qual sexo virou tabu ao contrário, isto é, qualquer questionamento da
atual postura do “é proibido proibir” é ridicularizado como retrógado,
repressor, ultrapassado. Nós vamos falar sob a ótica da psicologia e da
psicanálise. Primeiro vamos lembrar alguns dados sobre nossa realidade.
Depois veremos o que a psicologia e a psicanálise têm para nos ensinar
sobre a estruturação da sexualidade na criança e como nossa televisão
se comporta face a esse processo. Em seguida, discutiremos que posição
e tipo de ação nós, educadores, psicólogos, pais podemos ter face a esse
estado de coisas. Alguns dados e reflexões:
?números do Ministério da Saúde mostram que a maior causa de internação
de meninas de 10 a 14 anos nos hospitais do SUS são os partos ou as conseqüências
de abortos mal feitos. Em 98, no Brasil, foram feitos cerca de 32000 atendimentos
desse tipo.
? números do Serviço de Atendimento ao Adolescente da PMSP mostram que
50% das adolescentes engravidam nos primeiros 6 meses de atividade sexual;
20% no primeiro mês.
? pesquisa recente em São Paulo revela que mais de 90% dos adolescentes
conheciam os recursos contraceptivos, no entanto, apenas 29, 6% usaram
esses recursos na primeira relação.
? não temos estatísticas sobre isso, mas sabe-se que o Brasil é considerado
uma das mecas do turismo sexual e da prostituição infantil ? sobre as
DST e a AIDS. Sabemos que 75% das contaminações pelo vírus HIV se dão
por meio das relações sexuais e que as DST aumentam a vulnerabilidade
ao vírus. E que o Brasil também é um dos “campeões” nessa área
? há ainda um outro fator que precisa ser considerado junto com esses
dados: é o fato de que vivemos um momento histórico de intensas mudanças
culturais: a mudança da posição da mulher na família; a diluição da função
paterna e a instauração da “democracia familiar”; o aumento da responsabilidade
do Estado e da Escola face às crianças e a consequente diminuição da responsabilidade
dos pais, etc. Isso sem falarmos nas mudanças tecnológicas e econômicas
(globalização, por exemplo ). O fato é que estamos todos um pouco perdidos,
tateando pela vida na busca de novas formas de ser. Esse vazio de referências
dá espaço a um “vale tudo”no esforço de preenchê-lo. Se por um lado vivemos
uma fase fascinante em termos de estímulo à criatividade, por outro temos
que nos apoiar intensamente em nossa capacidade de discernimento, para
não deixarmos que o caos se instale em nós.
? e, finalmente é importante remarcar que a televisão é um veículo educativo
e de promoção humana inigualável e que a televisão brasileira está entre
as melhores do mundo em qualidade técnica. E que, em parte, devemos à
ela a unificação de nossa identidade de brasileiros, num país tão vasto
e diversificado.
Aqui estaremos falando da falta de responsabilidade social das emissoras
comerciais no que se refere a dois aspectos, que de fato são interligados:
1º) a competição selvagem por índices de audiência e retorno financeiro,
sem que o governo faça cumprir leis existentes em vários níveis, até mesmo
na Constituição. 2º) a falta de compromisso com o bem estar psicológico
de nossas crianças e adolescentes (o que significa toda a programação
diurna e até às 22 horas, horário em que, na nossa cultura, os mais jovens
estão expostos, desacompanhados, à influência da televisão.) Falaremos
aqui sobre alguns aspectos da problemática da sexualização precoce, mas
é bom lembrar que a questão do estímulo à violência é igualmente grave.
Como a Psicologia e a Psicanálise podem nos ajudar? Como elas vêem o processo
de estruturação da sexualidade da criança? A sexualidade surge na adolescência
devido à ação dos hormônios? Ela é um instinto inalterável, como nos animais?
Sabemos que o impulso sexual humano caracteriza-se por ser moldado culturalmente,
o que explica as várias formas que ele apresenta. Como isso se dá? São
os cuidados maternos que despertarão o bebê para a vida erótica: dizemos
que a mãe fará uma inscrição erótica no corpo do bebê. Para isso, naturalmente
espera-se que a mãe seja psiquicamente saudável. A criança vai elaborando
aos poucos os estímulos que constituirão seu mundo erótico. A mãe é o
seu primeiro amor. Aos poucos, entra o pai requisitando a mãe e pondo
limites nessa relação. O pai torna-se também um objeto de amor e organizador
do erotismo da criança. A criança aprende a renunciar à mãe para o pai
e se resigna a adiar para mais tarde a expressão plena de seu erotismo.
Esse é um processo extremamente complicado onde entram a mãe, o pai e
os familiares próximos. Da forma como ele é resolvido, dizemos que dependerá
a saúde mental desse indivíduo, para o resto da vida. Portanto a estruturação
psicossexual da criança se dá na troca afetiva entre ela, seus pais e
familiares, na qual cada um tem sua função determinada, o que permite
que a criança vá, aos poucos, e de acordo com suas possibilidades crescentes,
organizando seus impulsos eróticos em consonância com as regras de seu
sistema familiar. O que está fazendo a nossa televisão? Ela inunda massivamente
a criança com uma sexualidade adulta e muitas vezes pervertida. A criança
possui uma sexualidade com características diferentes da sexualidade adulta,
porque ela ainda não organizou todos aqueles impulsos e impressões eróticas
dispersas, num todo coerente. Só aos poucos ela vai organizar seu erotismo
na direção da genitalidade, isto é, da relação sexual propriamente dita.
É um processo no qual ela terá que elaborar as ansiedades referentes às
repressões sexuais da primeira infância, para então poder atingir a plenitude
da maturidade genital. E temos a questão da perversão. O que são atitudes
perversas? São idéias de que posso usar o outro como eu quiser, transformando-o
num objeto usável e descartável do meu gozo momentâneo, fora do contexto
de uma relação humana com ele. A sexualidade infantil tem muitas dessas
características perversas, pois a criança ainda não consegue ver o outro
como um ser separado dela. Aos poucos, ela terá que aprender que o outro
não existe para ser usado, mas é alguém com quem ela deve se relacionar
como um ser humano, diferente dela. Chamamos essa aprendizagem de socialização
da criança, ou, se quiserem, de educação moral. Trata-se de ensinar à
criança a controlar, reprimir, seus impulsos perversos (egoístas, se quiserem)
para que ela possa viver em sociedade. Esses impulsos são, por natureza,
sem limites. Daí a necessidade de se aprender a pôr limites neles. Esses
limites são as normas culturais que a criança introjeta, através de um
processo que chamamos de educação. É a educação que auxilia a criança
a manejar seus impulsos primitivos, tanto eróticos como agressivos, e
esse processo é necessário tanto para a saúde mental do indivíduo, como
para possibilitar a vida em sociedade. Uma má interpretação da psicologia
e da psicanálise parece ter levado as pessoas a acreditarem que não se
deve pôr limites nas crianças, para não traumatizá-las, e então elas perderem
sua criatividade. Essa idéia é uma falsa interpretação da psicanálise
e que é muito difundida, infelizmente. Ela está na raiz de muitos dissabores
que vivemos na nossa cultura atualmente: na aflição dos professores que
não sabem mais o que fazer para conter a falta de limites das crianças
nas escolas, na sociedade como um todo que não está conseguindo pôr limites
na escalada de violência, etc. Portanto a educação dos impulsos primitivos
perversos (ou egoístas) é não só socializadora como, de fato, humanizadora.
Como, apesar das repressões, esses impulsos tendem a ressurgir indefinidamente,
a sociedade para proteger-se deles, faz suas regras de conduta, sob forma
de leis e sanções. (O que nos remete à questão da impunidade em nossa
cultura) Voltando à sexualidade: Não faz portanto o menor sentido que
nossa televisão tenha o direito de invadir massivamente a criança com
estímulos sexuais face aos quais ela ainda não tem condições próprias
de se defender. O que está acontecendo em nosso meio equivale a alimentar
bebês com feijoada e vatapá: pratos genuinamente brasileiros, muito apreciados,
mas impróprios para o consumo infantil. A preocupação em preservar estilos
próprios, brasileiros, de viver a sensualidade, não deve nos confundir
, levando-nos a compactuar com essa ausência de regras sobre a veiculação
da sexualidade pela mídia. Sabemos que a sexualidade se constrói em cima
de regras, as regras familiares, e que sem regra e, portanto, interdições,
não é possível estruturar uma sexualidade propriamente humana. Nossas
crianças e adolescentes não estão tendo o direito de construir sua sexualidade
aos poucos, partindo das experiências vividas no seu núcleo familiar protegido,
e, daí sim, adquirir seus próprios valores sexuais com os quais irá fazer
suas escolhas amorosas futuras. Em vez disso, ela é bombardeada com cenas
sexuais alheias à sua realidade imediata, as quais ela não tem condições
de integrar num conjunto coerente. Esse bombardeio se dá por 3 a 4 horas,
diariamente, e sabemos que a maioria de nossas crianças passa menos tempo
que isso na escola. Muitas vezes ouvimos falar que nossa televisão não
é diferente da televisão de outros países, que também apresentam programas
muito violentos e de baixo nível, nos canais abertos. Isso entretanto
não é verdadeiro no que se refere ao ítem sexualidade. Nossa televisão
caracteriza-se por ser hipersexualizada, como nenhuma outra. Que efeitos
isso pode ter? De fato não sabemos com precisão todas as consequências
desse estado de coisas. Vou citar algumas das conseqüências mais conhecidas:
1º) A banalização da sexualidade O acúmulo de cenas sexuais de todos os
tipos sendo despejadas continuamente sobre a criança faz com que ela aprenda
a ver o sexo como algo banal, que se faz porque todos fazem, porque o
grupo pressiona e não pelo significado pessoal que possa ter. Pesquisas
recentes atestam esse "fazer por fazer."
2º) O efeito identificação Cenas sexuais apresentadas por jovens atraentes,
com quem os adolescentes se identificam e para os quais as conseqüências
do ato nunca aparecem como de fato são, têm todas as condições para serem
imitadas. Isso aplica-se não só à sexualidade, naturalmente, e é a base
de toda estrátégia de marketing. Muitos dirão que isso não é assim tão
grave, já que afinal, a maior influência sobre a criança é a família,
e que nas famílias bem estruturadas a influência da televisão na sexualidade
delas será mínimo.Se esse raciocínio fosse verdadeiro, então não haveria
razão para se proibir o marketing de fumo e bebida alcoólica, pois crianças
bem orientadas, não fumariam nem se alcoolizariam. No entanto, nossa sociedade
houve por bem proibir esse tipo de propaganda. A família é muito importante
para a criança, mas não podemos esquecer que, na adolescência, surgem
identificações secundárias,isto é,novos modelos, além dos pais, começam
a ter importância para os jovens. Além disso, em nosso meio, o que ocorre,
é que a televisão estimula massivamente tipos de saída duvidosos, para
dizer o mínimo, para o erotismo e para a agressividade, para crianças
já submersas em promiscuidade e violência. Essa combinação torna-se, de
fato, explosiva.
3º) Os mecanismos de defesa que atuam na adolescência hoje, acreditam
alguns, com tanta informação, os jovens saberão defender-se usando a camisinha.
Pois bem, muitos não o fazem. As pesquisas mostram que mesmo com todas
as informações possíveis, muitos jovens não se previnem. O fato é que
cada jovem terá seu próprio ritmo na organização de seu mundo mental.
Enquanto isso não se processa, o jovem não tem condições de pensar a sexualidade
e suas conseqüências, com a clareza com que uma pessoa adulta o faria.
Sabemos que o adolescente usa mecanismos de defesa muito primitivos para
fazer face ao acréscimo de ansiedade, gerado pelas modificações orgânicas,
psíquicas e sociais próprias dessa fase. Portanto, atualmente, assistimos
a uma situação paradoxal: livres dos preconceitos e repressões das gerações
anteriores, os orientadores se dispõem a ensinar aos jovens como se proteger;
só que nem sempre eles querem, ou conseguem, aprender. A angústia face
à sexualidade adulta emergente faz com que defesas do tipo negação da
realidade, controle onipotente da situação, idealização do outro, etc,
sejam ativadas. Daí nosso desespero quando perguntamos à adolescente grávida:
- "Você não sabia que podia engravidar?" - "Sabia." - "E por que não usou
camisinha?" - "Porque achei que não ia acontecer". Ou: - "Porque confiei
no meu namorado". Essa negação da realidade, em um adolescente, não é
sinal de patologia grave, como seria no adulto. É apenas um sinal de que
ele é adolescente. Só que alguém com esse tipo de realidade interna ainda
não está apto para fazer escolhas conscientes. E não há idade cronológica
que defina quem está pronto. Simplesmente cada um tem seu ritmo. Pelo
mesmo motivo nossa sociedade definiu que a idade mínima para dirigir carro
é 18 anos. E sabe-se que a maioria dos acidentes são provocados pelos
jovens motoristas. As conseqüências do sexo irresponsável não são menos
graves. (Por isso, quando aquele Ministro do Supremo disse que uma
menina de 12 anos, atualmente, já é uma adulta, ele mostrou que não entende
nada de adolescência.) Portanto, esse incentivo generalizado à atividade
sexual dos jovens é uma inconseqüência de quem o faz. Em nosso Projeto,
temos um lema que repetimos à exaustão:
" Transar não é coisa para criança; é coisa para quem tem cabeça de
gente grande".
Além disso, ouvimos tanto falar que os jovens estão iniciando a atividade
sexual cada vez mais cedo, que fica no ar a impressão de que alguma modificação
biológica está ocorrendo na espécie humana. Isso não é verdade. Embora
a menstruação esteja ocorrendo ligeiramente mais cedo em diversas populações,
devemos pensar que, no ser humano, a atividade sexual é predominantemente
determinada pela cultura, não pelo instinto, como nos animais e que essa
precocidade deve ser compreendida culturalmente, em suas múltiplas facetas.
4º) O uso da mulher como objeto do desejo masculino pervertido (pervertido
no sentido de que a mulher é vista somente como um corpo, ou parte de
um corpo, a ser usado e descartado e não como um ser humano com quem se
relacionar em sua totalidade.) Penso que a nossa televisão está ocasionando
um grande dano na estruturação da identidade feminina de nossas meninas.
De fato, não faz o menor sentido bombardear meninas e jovens com cenas
em que a mulher é reduzida ao estatuto de objeto sexual descartável. Nossa
televisão não oferece, às nossas meninas e adolescentes, modelos suficientes
de identificação feminina, nos quais a mulher apareça íntegra em sua dignidade
humana, como o fazem intensamente os países avançados, onde os movimentos
feministas zelam para que isso aconteça. O que estamos ensinando às nossas
meninas é que sua função na vida é ser objeto e não Sujeito. Com isso
causamos graves danos à sua feminilidade, à sua auto-estima e à sua futura
capacidade de amar como mulher e mãe. Fala de uma menina de 10 anos da
favela Paraisópolis em São Paulo: "Tia, por que na televisão os homens
aparecem vestidos e as mulheres meio peladas?" O mesmo tipo de perversidade,
só que ao contrário, é o caso da Xuxa e da Sasha, onde o homem é usado
como reprodutor e depois descartado. Para concluir: Em termos da nossa
televisão, o que me parece mais urgente é a questão de haver regras, mesmo
que as tenhamos que rediscutir, questionar, refazer. O dano psíquico maior
que a TV tem causado, a meu ver, é menos o efeito de um programa específico,
do que a postura de "estar acima de qualquer regra" que a cerca. A importância
da influência dela em nossa sociedade é grande demais, para que ela possa
assumir uma atitude pervertida ("imponho ao outro a minha vontade") como
essa. A falta de regras leva as emissoras à uma busca compulsiva de "cada
vez mais transgressão" na procura do seu próprio limite. Quem deve fazer
aí a função de pai e colocar os limites? A sociedade como um todo. O que
estamos assistindo a televisão fazer é uma busca do como chocar cada vez
mais, como produzir cada vez emoções mais fortes. Sem que aparentemente
ninguém a detenha. Essa é uma atitude extremamente deseducadora para a
criança e o jovem, que estão aprendendo a conciliar seus impulsos agressivos
e eróticos com as regras sociais. Por sermos e para sermos humanos, temos
que estar todos sujeitos a regras, claro, democraticamente feitas, mas
que elas existam e sejam cumpridas. O "tudo pode" sem limites leva:
1º) ou à busca desenfreada de emoções cada vez mais fortes numa atitude
de tipo psicótica (queimar o índio pataxó é um exemplo disso) 2º) ou a
uma angústia avassaladora face a essa falta de freios aos impulsos destrutivos
inerentes ao ser humano, e à procura deles em rígidas regras externas
já estabelecidas (religiões fundamentalistas, o exército, colégio interno,
a polícia, uma ditadura etc.)
3º) ou, nas pessoas mais bem estruturadas, à busca de regras estabelecidas
e compartilhadas pela sociedade, que é o que estamos fazendo aqui. Antes
de finalizar, quero lembrar-lhes que as emissoras de televisão são uma
concessão do governo, feita em nosso nome
Se não estivermos satisfeitos com o uso que elas tem feito dessa concessão,
(e eu não estou nada satisfeita) devemos nos mobilizar e reclamar, pressionar,
boicotar os produtos dos patrocinadores de maus programas, lutar pelos
nossos direitos de telespectadores.
Nós já temos leis sobre os meios de comunicação bastante adequadas,
que não são cumpridas por falta de regulamentação e vontade política para
fazê-la. Em nenhum país avançado a televisão funciona sem regras, como
no nosso. Temos que mudar esse estado de coisas. Penso que o estabelecimento
de regras é urgente, assim como o seu cumprimento; nas sociedade modernas,
não só na nossa, muitos jovens vivem um esgarçamento severo dos valores
de convivência social. Isso tem várias causas (não só a pobreza) mas,
no nosso meio, a televisão, devido a seu alcance, certamente tem contribuído
para essa situação.
Escrito
pela psicóloga clínica Sonia Thorstensen em setembro de 1999
E-mail:
tver@tver.org.br
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